Comunicação Social

August 13, 2008 at 8:07 am (Uncategorized) (, )

Não q eu esteja realmente preocupado com a situação da comunicação social na Itália, mas o comentário desse cara, embora excessivamente rebuscado, me contempla, principalmente quando fala de sua formação instrumental.

As novas opções didáticas da Faculdade de Comunicação “La Sapienza” me impõem tornar públicas algumas perplexidades, posto que, face à indubitável crise do sistema trienal, decidiu-se reestruturar a grade de estudos segundo uma visão de comunicação restaurativa, esmagando a existente. Desta forma, a ciência da comunicação corre o risco de se reduzir a uma preparação profissional voltada para o jornalismo; conexões experimentais e trans-disciplinares que emergem na comunicação digital (estendidas para o design, arquitetura, publicidade, performance, música, moda, arte, etc.) são muitas vezes mal compreendidas, “descontroladas” ou neutralizadas na “técnica”, sendo ignoradas, por conseguinte, aquelas pesquisas que tentam modificar os paradigmas expositivos, as composições expressivas, as narrativas multisequenciais.

Esta tendência em encerrar a comunicação dentro de um jornalismo asfixiado em apologia à mídia empobrece a Faculdade, transforma os professores em funcionários da “indústria cultural”, treina os alunos para a renúncia da inovação e para o consentimento disciplinado, fecha aos novos profissionais visões, estilos, linguagens, estando indiferente para as perspectivas que, em universidades no exterior, já há algum tempo são aplicadas nesta área (veja o papel da antropologia no Estudos da Mídia – como MIT, Universidade Humboldt, Escola de Comunicação e Arte). Tudo isso ameaça configurar-se em um provincianismo disciplinar, endogamia dos meios de comunicação social, desconfiando do que é emergente, subtraindo o potencial digital.

A matéria que ensinei por mais de 20 anos – Antropologia Cultural, matéria fundamental para os estudantes do primeiro ano – foi eliminada, tanto em Roma, na Itália, como em outros lugares, quando seria necessário multiplicar a investigação com esta orientação, para contrastar às perigosas ondas racistas, os fechamentos locais, decisionismi verticistici, grettezze dos meios de comunicação social. Preferiu-se, ao contrário, incidir sobre os temas “clássicos” (direito e história), eliminando a primeira das três principais disciplinas das ciências sociais (antropologia, sociologia, psicologia). O professor que a ensinava vem do “exílio” durante o terceiro ano do curso de Cooperação e Desenvolvimento, para uma matéria chamada Comunicação Intercultural. Já no título do curso se exprime a continuidade de uma dominação neo-colonial no Ocidente contra um outro mundo: que a “cooperação” esteja focada em fornecer ajuda econômica aos licenciados e aos respectivos países onde residem, antes que ao “outro” deveria ser óbvio; e sobre a crítica do conceito de “desenvolvimento” foram escritas tantas redações antes e depois de ’68 que é aborrecedor apenas ter de lembrar isso. Depois que se cria uma matéria como Comunicação Intercultural, que já no nome reforça o enclausuramento identitário e cultural, a regressão científica e educacional, infelizmente, parece ser compatível com as políticas da “liga romana” adaptada ao clima predominante, onde um pegajoso catolicismo tenta controlar governos e oposições, universidades, faculdades, professores.

As referências nas quais minha cadeira está inspirada estão localizadas, entre outras, na veia antropológica inaugurada por Gregory Bateson: que, a partir de sua investigação pioneira em Bali, permitiu-lhe elaborar uma dupla ligação, um conceito entre os mais extraordinários, aplicável tanto à comunicação “normalmente” psico-patológica quanto aos nascentes meios de comunicação social; culminando em sua colaboração com a Wiener em suas primeiras pesquisas sobre cibernética. Ao invés de se envolver com santos e madonne, procissões e provérbios – temas muitas vezes exclusivos para nosso ensino – a investigação antropológica de Bateson se inseria nos fluxos comerciais já na época da emergência da comunicação, da tecnologia, da alteridade.

Por último, esta carta não reivindica nada pessoal (vou me aposentar a partir do próximo ano e, em seguida, deixar esta Faculdade). Ela exprime um posicionamento político-cultural que identifica, na crescente crise aparentemente irreversível da Faculdade de Ciência da Comunicação, uma questão sobre a qual se endereça à reflexão crítica, de interesse dos professores, estudantes, trabalhadores: daqueles que vivem e respiram o ar de uma universidade e procuram dar sentido ao futuro possível, e não se limitam a reproduzir o pior dos presentes midiatizados.

Lettera aperta per la Facoltà di Scienze della Comunicazione – Massimo Canevacci

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