Carta a um Crítico Severo

September 3, 2009 at 7:12 pm (Uncategorized) (, , , , )

O Cyrano disponibilizou um trecho do livro conversações do Deleuze no blog dele. Muito bom dani, já fui correndo e dei uma roubada. Aí vai um treccho de aperitivo:

Você é encantador, inteligente, malevolente, quase ruim. Mais um esforço… afinal, a carta que você me manda, invocando ora o que se diz, ora o que você mesmo pensa, e os dois misturados, é uma espécie de júbilo pela minha suposta infelicidade. Por um lado, você diz que estou acuado, em todos os sentidos, na vida, no ensino, na política, que me tornei uma vedete imunda, que aliás isso não dura muito, e que não tenho saída. Por outro lado, você diz que eu sempre estive a reboque, que sugo o sangue e degusto os venenos de vocês, os verdadeiros experimentadores ou heróis, e que eu mesmo fico à margem, só observando e tirando proveito. Para mim não é nada disso. Já estou tão cheio de verdadeiros ou falsos esquizos que me converteria com prazer à paranóia. Viva a paranóia! O que você pretende me injetar com sua carta é um pouco de ressentimento (você está acuado, você está acuado, “confessa”…) e um pouco de má consciência (não tem vergonha, está a reboque…); se era só isso, não valia a pena me escrever. Você se vinga por ter feito um livro sobre mim. Sua carta está repleta de uma comiseração fingida e de uma real sede de vingança. (Deleuze)

o resto

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Comunicação Social

August 13, 2008 at 8:07 am (Uncategorized) (, )

Não q eu esteja realmente preocupado com a situação da comunicação social na Itália, mas o comentário desse cara, embora excessivamente rebuscado, me contempla, principalmente quando fala de sua formação instrumental.

As novas opções didáticas da Faculdade de Comunicação “La Sapienza” me impõem tornar públicas algumas perplexidades, posto que, face à indubitável crise do sistema trienal, decidiu-se reestruturar a grade de estudos segundo uma visão de comunicação restaurativa, esmagando a existente. Desta forma, a ciência da comunicação corre o risco de se reduzir a uma preparação profissional voltada para o jornalismo; conexões experimentais e trans-disciplinares que emergem na comunicação digital (estendidas para o design, arquitetura, publicidade, performance, música, moda, arte, etc.) são muitas vezes mal compreendidas, “descontroladas” ou neutralizadas na “técnica”, sendo ignoradas, por conseguinte, aquelas pesquisas que tentam modificar os paradigmas expositivos, as composições expressivas, as narrativas multisequenciais.

Esta tendência em encerrar a comunicação dentro de um jornalismo asfixiado em apologia à mídia empobrece a Faculdade, transforma os professores em funcionários da “indústria cultural”, treina os alunos para a renúncia da inovação e para o consentimento disciplinado, fecha aos novos profissionais visões, estilos, linguagens, estando indiferente para as perspectivas que, em universidades no exterior, já há algum tempo são aplicadas nesta área (veja o papel da antropologia no Estudos da Mídia – como MIT, Universidade Humboldt, Escola de Comunicação e Arte). Tudo isso ameaça configurar-se em um provincianismo disciplinar, endogamia dos meios de comunicação social, desconfiando do que é emergente, subtraindo o potencial digital.

A matéria que ensinei por mais de 20 anos – Antropologia Cultural, matéria fundamental para os estudantes do primeiro ano – foi eliminada, tanto em Roma, na Itália, como em outros lugares, quando seria necessário multiplicar a investigação com esta orientação, para contrastar às perigosas ondas racistas, os fechamentos locais, decisionismi verticistici, grettezze dos meios de comunicação social. Preferiu-se, ao contrário, incidir sobre os temas “clássicos” (direito e história), eliminando a primeira das três principais disciplinas das ciências sociais (antropologia, sociologia, psicologia). O professor que a ensinava vem do “exílio” durante o terceiro ano do curso de Cooperação e Desenvolvimento, para uma matéria chamada Comunicação Intercultural. Já no título do curso se exprime a continuidade de uma dominação neo-colonial no Ocidente contra um outro mundo: que a “cooperação” esteja focada em fornecer ajuda econômica aos licenciados e aos respectivos países onde residem, antes que ao “outro” deveria ser óbvio; e sobre a crítica do conceito de “desenvolvimento” foram escritas tantas redações antes e depois de ’68 que é aborrecedor apenas ter de lembrar isso. Depois que se cria uma matéria como Comunicação Intercultural, que já no nome reforça o enclausuramento identitário e cultural, a regressão científica e educacional, infelizmente, parece ser compatível com as políticas da “liga romana” adaptada ao clima predominante, onde um pegajoso catolicismo tenta controlar governos e oposições, universidades, faculdades, professores.

As referências nas quais minha cadeira está inspirada estão localizadas, entre outras, na veia antropológica inaugurada por Gregory Bateson: que, a partir de sua investigação pioneira em Bali, permitiu-lhe elaborar uma dupla ligação, um conceito entre os mais extraordinários, aplicável tanto à comunicação “normalmente” psico-patológica quanto aos nascentes meios de comunicação social; culminando em sua colaboração com a Wiener em suas primeiras pesquisas sobre cibernética. Ao invés de se envolver com santos e madonne, procissões e provérbios – temas muitas vezes exclusivos para nosso ensino – a investigação antropológica de Bateson se inseria nos fluxos comerciais já na época da emergência da comunicação, da tecnologia, da alteridade.

Por último, esta carta não reivindica nada pessoal (vou me aposentar a partir do próximo ano e, em seguida, deixar esta Faculdade). Ela exprime um posicionamento político-cultural que identifica, na crescente crise aparentemente irreversível da Faculdade de Ciência da Comunicação, uma questão sobre a qual se endereça à reflexão crítica, de interesse dos professores, estudantes, trabalhadores: daqueles que vivem e respiram o ar de uma universidade e procuram dar sentido ao futuro possível, e não se limitam a reproduzir o pior dos presentes midiatizados.

Lettera aperta per la Facoltà di Scienze della Comunicazione – Massimo Canevacci

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Nietzsche – Ciência e filosofia

July 29, 2008 at 11:01 pm (Uncategorized) (, , , , , )

Sobre a filosofia, a ciência e outras formas de eliminação do corpo:

Supondo que essa vontade encarnada de contradição e antinatureza seja levada a filosofar, onde descarregará seu arbítrio mais íntimo? Naquilo que é experimentado do modo mais seguro como verdadeiro, como real: buscará o erro precisamente ali onde o autêntico instinto de vida situa incondicionalmente a verdade. Fará, por exemplo, como os ascetas da filosofia vedanta, rebaixando a corporalidade a uma ilusão, assim como a dor, a multiplicidade, toda a oposição conceitual de “sujeito” e “objeto” – erros, nada senão erros! Recusar a crença em seu Eu, negar a si mesmo sua “realidade” – que triunfo! – não mais apenas sobre os sentidos, sobre a evidência, mas uma espécie bem mais elevada de triunfo, uma violentação e uma crueldade contra a razão: volúpia que atinge seu cume quanto o autodesprezo, o auto-escárnio ascético da razão decreta: “existe um reino da verdade e do ser, mas precisamente a razão é excluída dele!…”. (Dito de passagem: mesmo no conceito kantiano de “caráter inteligível das coisas” resta ainda algo desta lasciva desarmonia de ascetas, que adora voltar a razão contra a razão: pois “caráter inteligível” significa, em Kant, um modo de constituição das coisas, do qual o intelecto compreende apenas que é, para o intelecto, absolutamente incompreensível.) – Devemos afinal, como homens do conhecimento, ser gratos a tais resolutas inversões das perspectivas e valorações costumeiras, com que o espírito, de modo aparentemente sacrílego e inútil, enfureceu-se consigo mesmo por tanto tempo: ver assim diferente, quererver assim diferente, é uma grande disciplina e preparação do intelecto para a sua futura “objetividade” – a qual não é entendida como “observação desinteressada” (um absurdo sem sentido), mas como a faculdade de ter seu pró e seu contra sob controle e deles poder dispor: de modo a saber utilizar em prol do conhecimento a diversidade de perspectivas e interpretações afetivas. De agora em diante, senhores filósofos, guardemo-nos bem contra a antiga, perigosa fábula conceitual que estabelece um “puro sujeito do conhecimento, isento de vontade, alheio ã dor e ao tempo”, guardemo-nos dos tentáculos de conceitos contraditórios como “razão pura”, “espiritualidade absoluta”, “conhecimento em si”; – tudo isso pede que se imagine um olho que não pode absolutamente ser imaginado, um olho voltado para nenhuma direção, no qual as forças ativas e interpretativas, as que fazem com que ver seja ver-algo, devem estar imobilizadas, ausentes; exige-se do olho, portanto, algo absurdo e sem sentido. Existe apenas uma visão perspectiva, apenas um “conhecer” perspectivo; e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso “conceito”18 dela, nossa “objetividade”. Mas eliminar a vontade inteiramente, suspender os afetos todos sem exceção, supondo que o conseguíssemos: como? – não seria castraro intelecto?…

NIetzsche,F. Genealogia da Moral: Terceira dissertação-12

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Feng Shuí

July 2, 2008 at 11:56 am (Uncategorized) (, , )

Vou fazer um Feng-shui em mim mesmo:
Começarei tirando os carrapatos do todo e o vermelho das bochechas. Bochechas não servem para a vergonha.
Vou tirar a inteligência do pau e o colocarei na cabeça. A cabeça servirá de abajur, apenas me dará verdades a seguir. Ótimo lembrete: Comprar meia dúzia de verdades e espalhe pelo corpo inteiro.
Nos pés vc deve manter as frieiras, elas vão servir de hobby, enquanto isso, o pau serve de playground.
O cabelo deve ser auto sustentavel… a natureza sabe se virar.
A dor de cutuvelo não deve apontar para o norte, colocarei no banheiro, na fossa!
Tirar as marcas de carpinteiro da mão e a idéia de que vc é Jesus Cristo da cabeça.
As roupa eu já tenho, um lindo macacão transcendente.
Tirarei todo o romantismo do coração e tacarei de volta a poesia concreta(sangrado/ de sangue a sangue).Lembrar que essa parte é muito importante, apesar do concreto a mobilia deve ser pós moderna. Colocar um lembrete: Nesse labirinto possui um minotauro! Tirar o excesso de bondade e trocar por malícia!!!

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Cientísta

July 2, 2008 at 11:21 am (Uncategorized) (, , )

Oráculo dotado do poder de escrever errado por linhas retas.

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